SONHA, FIA!

Publicado originalmente em 30/01/2009, no Avesso do Espelho

É, muita gente precisa acordar, pra muita coisa na vida. Na e para a moda, inclusive. Alexandre Herchcovitch provavelmente compartilha da mesma opinião, por isso colocou suas modelos desfilando máscaras de dormir como enfeites de cabeça. E o problema da Faixa de Gaza é sério (e sênior), e requer, ao menos, a reflexão de todos. Até aí, ok, o mundo está acontecendo e nós tentamos o seu entendimento. Mas chega um momento em que um lenço palestino só é herdeiro de sua descendência no nome. Um adolescente brasileiro – que nem imagina trazer sobre o pescoço uma ‘moda’ lançada em 2007 por Nicolas Ghesquière à frente da francesa Balenciaga – também não desperta para o fato do adorno, antes da França, ter vindo do Oriente Médio. E estará ele tão errado (ou alienado) assim? Realmente temos a obrigação político-cultural de saber a origem de cada peça que carregamos sobre o corpo? Só assim seremos cidadãos conscientes e respeitáveis? Não pode a moda, justamente, também assumir um outro viés e destinar-se à imersão de beleza e fantasia na vida daqueles que respiram e pulsam a realidade diariamente?

lenco_palestino_amb

Porque se o movimento está difícil em Gaza, pode não ser muito diferente na casa deste mesmo adolescente que caminha pelo centro de São Paulo em busca de si e de um emprego para ajudar na casa, de três cômodos, em que vive com a mãe e mais cinco irmãos, um da cada pai, ausente. Será que ele já não está desperto o suficiente para sua realidade? Se ele trouxer a consciência palestina junto com seu lenço, será que este não vai enforcá-lo ao invés de enfeitá-lo? E será que esse adolescente brasileiro necessita, de fato, de mais um nó a lhe sufocar a garganta?

Romântica e sinceramente, eu acredito que não.

Sim, certamente precisamos enxergar o mundo em que habitamos, mas também precisamos sonhar – e ao sonho está implícito o sono. Precisamos de coisas belas somente pela beleza que lhes é essência, à revelia de sua linhagem. Precisamos de risadas gratuitas e não dependemos, em absoluto, de saber que o roxo é tendência para gostar dele.

Antes de me formar em moda tentei eu, por 1 ano e meio, a faculdade de Direito. Sonhava (acordada, eis o perigo) em mudar o mundo exercendo a justiça, mas me flagrei dançando a não-justiça (ou as leis não descritas) como único caminho à sobrevivência jurídica. Desisti, então, de ser a heroína do homem para, simplesmente, contribuir para o embelezamento de uma humanidade que precisa ser salva de tudo o que é feio, roupa inclusive. E quer saber? Sou muito mais feliz assim, pois ao invés de leis estudo cores e isso me garante a sanidade e o sorriso ao fim de cada dia. E não sou melhor ou pior por isso, não sou mais ou menos politizada, não sou mais ou menos útil ou inútil – sou mais eu, só isso.

Vivian Whiteman, eu amo você, amo o Alcino e amo a moda última que escrevem. E compreendo, perfeitamente, o que intencionam dizer. Quero, sobretudo, um emprego, um estágio ou um freela aí na Folha. Mas também quero que um lenço palestino possa ser, POR VEZES, somente um lenço que vá deixar minha roupa mais bonita (?) e meu dia mais enfeitado. Porque se permitir o entregar é, porque não, também um jeito de acordar.

:-)

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